feminicídio

4 Ago

dia 15 o the curvature, um blog feminista gringo que acompanho e que costuma ter muitos posts sobre violência contra

mulheres fez um post sobre o caso eliza samudio. um post bem sensível. quando li o texto do the curvature escrevi para cara (a autora do blog) para compartilhar angústias e tentando explicar para ela como é a realidade da violência contra mulheres nesse país onde todo dia 10 mulheres são mortas vítimas de violência doméstica.

tate também postou sobre feminicídio na coluna dela no site da parada lésbica, como sempre contundente.

e a dju querida que está morando no méxico (e eu espero que volte logo) mandou para suas amigas um texto muito massa que me contemplou em muitos sentidos, vou colar ele aqui e espero que ela não se importe:

Escrevo um pouco para contar da vida uma pouco para desabar..
escrevo com a Alice, nossa companheira canina, deitada aqui na cama do meu lado, como está há 8 dias. ela foi atropelada, brincando numa merda de mundo feito mais pra carros que pra pessoas… por sorte só machucou uma patinha, mas ta bem feio, ferida aberta no osso….tamos dedicando quase todo o tempo a ela, e esperando que além dos curativos e remédios nosso amor ajude na cicatrização….ainda tem o risco de perder a pata, se infecciona, mas tamo fazendo de tudo pra que não aconteça. Enfim, enquanto ela esta em um dos pouco momentos de tranqüilidade, porque ainda é uma filhote, mesmo que seja grande de tamanho, e tem muita energia pra estar numa cama…. escrevo sobre o assassinato de eliza…. eu fiquei sabendo pela elisinha que o goleiro do fllamengo tinha matado a ex-namorada…fiquei em choque. Não porque não espere isso dos homens, mas porque faz alguns meses eu estava em frente a televisão gritando “Bruno! Bruno! O melhor goleiro do Brasil!” Ele não era só um jogador do flamengo,o que já seria suficiente pra eu morrer de vergonha, como disse Alice no texto do blog, mas pior, era meu jogador preferido do time hexacampeão.
Entrei em uma certa crise, se verdade, sem exageros, será que não posso gritar nunca o nome de um homem, porque tenho que contar sempre que ele pode ser um feminicida? Só posso torcer pro time
feminino do flamengo?(que acabo de me dar conta que não conheço, se é  que existe!) ta bem, a tradição do time não tem a ver com o a assassinato de Eliza, mas quantos homens feminicidas já não passaram pelo flamengo e eu gritei seus nomes?
No dia seguinte que elisinha me contou eu ia no tutelar(cárcere de adolescentes) e com todas as restriçõ
es de roupa pra entrar uma das possíveis era a do flamengo. Cheguei a vestir, e me senti mal, não tinha coragem de sair com ela, pensei, que melhor que deixar-la em casa, seria colocar um pet contra feminicidios…nao encontrei nenhum aqui em casa, todos estão em outras roupas. Vou pedir pra algum um, e só volto a vestir o manto rubronegro, se ele servir como uma mensagem anti feminicida, e só volto a ir num estádio ver o flamengo jogar se for com uma faixa contra o feminicidio, e nunca mais grito o nome de nenhum jogador, e ainda tenho esperanças que o futebol pode ser um espaço de reflexão política, e espero estar presente quando os caras façam piadas sobre o feminicido, os mesmo caras, provavelmente, que chamam viado quando um jogador faz alguma merda, espero estar aí pra dizer viado não! Heterossexual, assassino de mulheres.
O confronto é desgastante, mas necessário. Tenho vivido essa nova fase de explicar ao agressor o que é agressão de uma forma talvez um pouco extrema: entrando num cárcere de adolescentes, no auge da afirmação da masculinidade, com a disposição de que pelo menos um dos 50 que temos feito oficinas nunca mais maltrate uma mulher. É duro, mas tenho achado importante.
E já escrevi demais, né?
beijos saudosos
rubro-negra-roxa contra os feminicidios! Nem uma más! Se toca a uma nos toca a todas!

cada texto desse me contempla de maneira diferente, e parece que compartilha-los me desengasga um pouco… continuo falando pouco sobre o assunto e ainda muito assustada; fico com medo que toda essa exposição de casos sinistros de violência sexista na mídia sirva também para deslegitimar a Lei Maria da Penha. tudo bem, que to com a dju na desconfiança a respeito das instituições, internações, regime prisional e tudo mais. mas indecisão é o meu nome do meio, portanto penso frequentemente que talvez a impunidade,  seja legal, seja aquela que aparece na banalização do sexismo e da misoginia que faz com que boa parte das pessoas entendam violência contra mulheres não como um problema social, resultado de uma situação de assimetria de poderes entre homens e mulheres, mas como uma coisa normal e cotidiana. a crueldade cotidianizada vira ordinária, comum e portanto palatável. sem esquecer como a culpabilização das vítimas acaba por apagar o que há de cruel nesses atos.

acho portanto a lei uma conquista importante também no sentido de  reconhecer que em briga de marido e mulher devemos sim meter a colher. no sentido de caminhar pela compreensão de que a violência doméstica não é um problema privado, pessoal de um casal, que tenha a ver apenas com sua vida a dois, ou no caso de crimes brutais,que tenha a ver com uma doença psíquica do agressor,  mas sim o resultado de uma forma específica de organização social que está centrada na assimetria de poder entre homens e mulheres.  podemos chamar de patriarcado (é uma tentativa de fazer ver que o que é pessoal está contaminado de política).

colo aqui a definição de patriarcado que propusemos no guia do curso vidas plurais: enfrentando o sexismo e a homofobia nas escolas

Patriarcado e sociedade patriarcal

Chamamos de patriarcado a organização social centrada na diferença de poder e, portanto, na dominação das mulheres pelos homens. O regime patriarcal é uma expressão das ideologias sexistas, nele mulheres e homens tem papéis específicos e uma divisão sexual do trabalho está em operação, as mulheres aparecem como as cuidadoras e por isso a elas é reservado o espaço do lar, enquanto os homens aparecem como trabalhadores ou provedores. Além disso, no patriarcado a figura masculina é central para a organização familiar, o patriarca detém autoridade sobre os corpos e vontades das demais familiares

o curioso é que o brasil vive em um regime como esse, mesmo que a maioria de suas famílias não possua a figura do pai. é um patriarcado sem pais. mas ainda assim o poder do homem permanece…

cabia pensar num post pra frente essa coisa que dju chamou atenção. sobre o futebol no brasil e a construção de uma masculinidade escrota e violenta. torcida desorganizada feminista femi-fla já!

relacionado a esse post imenso veja o post da universidade livre feminista sobre a tipologia do feminicídio.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: