tradução!

12 Jul

A MULHER BIÓTICA: FALANDO SOBRE TRANSFOBIA E ECOFEMINISMO
COM IDA HAMER

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Entrevista extraída daqui e traduzida pela bióloga e ativista ecoqueer Sandra Michelli


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Ida Hamer tem escrito no THE VEGAN IDEAL por vários anos como uma forma de analisar e desconstruir opressões que se sobrepõem. Seu trabalho é focado em desfazer a transfobia nas comunidades vegetarianas e ecofeministas. Ida estava cansada de falar recentemente comigo sobre como o privilégio cissexual mina muito da escrita ecofeminista e como ela tem esculpido um espaço seguro para si mesma dentro de um movimento muitas vezes anti-trans.


Várias escritoras ecofeministas têm escrito de uma forma profundamente ofensiva, muitas vezes terrivelmente errada, sobre as pessoas trans e têm feito uma série de prejuízos para a credibilidade do movimento como sendo aberto, aceitável e que trabalha pela libertação de todas as pessoas. Porque você acha que a transfobia persiste e continua a vir a todo tempo na retórica e ativismo ecofeminista?

Para compreender porque a transfobia e o cissexismo persistem e são continuamente perpetuados por todas as comunidades feministas, particularmente na comunidade vegetariana ecofeminista, é importante considerar as origens do advocacy anti-trans como um projeto consciente de destaque, as feministas de uma elite branca nos anos 1970. No final dos anos 60 e início dos anos 70, as pessoas trans foram muito ativas nos movimentos de mulheres e de libertação queer. As rebeliões na Cafeteria Compton e de Stonewall dos anos 60 são evidências disso, assim como o são mulheres como Beth Eliot das Filhas de Bilits, Sandy Stone de da Olívia Records, e a veterana de Stonewall Silvia Rivera que foi membro fundadora da Frente de Libertação Gay e da Aliança Ativista Gay.

Portanto, é importante ter em mente que as mulheres trans, e as pessoas trans em geral, são uma parte integrante do início do movimento de libertação das mulheres. Mas da metade para o final dos anos 70, havia uma conspiração transfóbica dentro do feminismo para sistematicamente remover e excluir as pessoas trans, especialmente as mulheres transexuais, dos movimentos de mulheres e queer. Por exemplo, Rivera foi alvejada e fisicamente atacada por mulheres cissexuais separatistas numa manifestação pelos direitos dos homossexuais. Eliot foi alvejada por Robin Morgan e separatistas numa conferência de mulheres lésbicas. Stone foi atacada por Janice Raymond e forçada a sair da Olívia Records, com ameaças de um boicote. E Gloria Steinem da Revista Ms. abertamente atacou
mulheres trans.

Ao longo das últimas décadas, tem havido um aumento na organização e ativismo das pessoas trans, mas nós continuamos a ser alvo de uma reação sistemática de elite das feministas. As chamadas políticas das “mulheres-nascidas-mulheres” ainda são usadas para excluir as mulheres transexuais da participação em nosso próprio movimento. E enquanto as mulheres transexuais são desproporcionalmente alvo de sem-abrigo, prisões, e a violência física e sexual, uma aliança entre as feministas anti-trans e o Estado tem sido usada para burlar os direitos humanos a fim de impedir-nos de ter acesso a vários privilégios e serviços vitais para as mulheres. As mulheres trans tem sido forçadas para fora das organizações que prestam serviços às mulheres, que elas mesmas ajudaram a criar.
Gostaria também de salientar que enquanto o The Sexual Politics of Meat de Carol J. Adams é, de várias formas, considerado o livro para uma abordagem feminista da defesa dos animais não-humanos, este fato não pode ser dissociado do ódio e perseguição anti- trans que teve início nos anos 70. As raízes do The Sexual Politics of Meat têm origem no relacionamento de Adam com Mary Daily, que foi seu professor e mentor em meados dos anos 70. Esta relação, a qual Adam credita com a gênese de seu livro e ativismo, teve lugar ao mesmo tempo em que Daily estava escrevendo o seu ódio no livro anti-trans Gyn/ Ecology. Também foi ao mesmo tempo em que Daily estava aconselhando Raymond, outra aluna dela, na dissertação que se tornaria o livro The Transsexual Empire.

Assim, as origens do que atualmente é tido como a principal fonte de uma abordagem feminista para a defesa dos animais não-humanos tem suas origens num ambiente que foi o epicentro do sentimento anti-trans nos anos 70. No prefácio de The Sexual Politics of Meat, Adams começa seu livro com o que ela chama de “uma homenagem tranqüila pelo apoio inicial de Mary Daly ao meu trabalho bem como pela sua atual visão biofílica.” O que não é reconhecido é que a “visão biofílica” de Daly clama pela eliminação das transexuais, pessoas que Daly descreveu como “necrófilas” e, portanto, fora e contra a visão de mundo vegetariano ecofeminista.

Basicamente as pessoas trans nunca foram chamadas para serem incluídas no ecofeminismo. Enquanto uma nova geração de ecofeministas cissexuais simplesmente não podiam pensar em pessoas trans devida a nossa ausência forçada, o apagamento e a invisibilidade das pessoas trans no ecofeminismo não pode ser visto como um simples descuido. A maioria das figuras de destaque no ecofeminismo vegetariano teve em algum momento consciência sobre as pessoas trans e apoiou ativamente a nossa exclusão – isso inclui aqueles pseudo aliados que poderiam dizer que apoiavam as pessoas trans na esfera privada, ainda apóiam ativamente o nosso apagamento, quando ignoram a nossa opressão enquanto elogiam publicamente o trabalho de seus colegas transfóbicos.

A maioria das figuras de destaque no ecofeminismo vegetariano pensou, em algum momento, conscientemente sobre as pessoas trans e apoiou ativamente a nossa exclusão – isso inclui aqueles pseudo aliados que poderiam dizer que apóiam as pessoas trans na esfera privada, ainda apóiam ativamente o nosso apagamento na medida em que elogiam publicamente de seus colegas mais transfóbicos.

Quando questionadas sobre o atual estado cissexista das coisas, ecofeministas anti- trans, muitas vezes, insistem em que deixemos as coisas por isso mesmo. Mas desde de que a exclusão das pessoas trans já foi bem estabelecida, concordar em não fazer nada simplesmente mantém as pessoas trans invisíveis e o status que do jeito que está.
É fácil ignorar um grupo de pessoas oprimidas uma vez que elas tenham sido sistematicamente excluídas e alienadas de um movimento ao qual legitimamente elas pertencem. Não teriam as pessoa trans sido forçosamente exiladas do movimento de mulheres ao longo dos anos 70 e posteriormente impedido de regressar – às vezes com apoio da exclusão pelo Estado das proteções dos direitos humanos – as coisas teriam sido totalmente diferentes agora.

O ciclo só será quebrado quando as feministas cissexuais assumirem a responsabilidade pelo cissexismo e se tornarem elas mesmas e suas colegas responsáveis. Isso inclui seguir o exemplo das pessoas trans em questões trans, especialmente as mulheres trans em se tratando de nossa exclusão das comunidades feministas. Também é importante reconhecer que nem todas as pessoas trans têm sido afetadas da mesma forma. Muito freqüentemente os eventos e serviços para mulheres afirmam ser “trans-inclusivos” mas são restritos às mulheres cissexuais, homens trans e pessoas que variam em gênero mas são fêmeas, continuando assim o permanente legado de excluir especificamente as mulheres transexuais.

Á luz do tipo de tratamento que as pessoas trans tem recebido nas comunidades ecofeministas, quais formas de trabalho você tem desenvolvido para combater os esteriótipos cissexistas e encontrar um espaço seguro nos chamados círculos de anti- opressão?
Reconhecer e desafiar as formas como a escrita e a defesa em torno de uma abordagem feminista para o advocacy dos animais não-humanos tem sido dominado pelo apagamento das pessoas trans por parte das ecofeministas vegetarianas é, para mim, uma passo importante para se criar um espaço seguro para as pessoas trans se assumirem e exercerem a defesa feminista e dos animais não-humanos.

Eu fiz várias ações feministas de advocacy para os animais não-humanos antes de me assumir como trans. Naquela época eu estava consciente, na qualidade de uma mulher transexual enrustida, de que a aceitação como uma defensora feminista dos animais não humanos implicava em me manter enrustida e me comportando como um homem cissexual. Colocando de outra forma, ter uma perspectiva feminista para a defesa dos animais não- humanos eram em grande medida um privilégio de passar por uma pessoal cissexual, o que requeria que eu internalizasse as formas como as ecofeministas vegetarianas estavam perpetuando a opressão anti-trans.

O meu trabalho em The Vegan Ideal tem de fato sido meu primeiro trabalho fora do armário para desafiar a ideologia anti-trans e criar um espaço seguro para que eu possa explorar o advocacy anti-opressão, particularmente aqueles relacionados aos animais não- humanos. Os meus posts sobre como o cissexismo está entrelaçado ao ecofeminismo vegetariano tem sido parte de minha própria luta para me afirmar como uma mulher, uma feminista, e uma defensora dos animais não humanos. Eu agora rejeito aceitar qualquer abordagem de advocacy ou de trabalho anti-opressão que exija que eu, ou quem quer que seja, negue uma parte de quem somos e internalize nossa opressão para que possamos participar.

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Uma resposta to “tradução!”

Trackbacks/Pingbacks

  1. sectarismo? « parler femme - Novembro 18, 2010

    […] que aparece nesses textos (se é que aparece). tudo isso porque estava completamente contaminada da crítica que ida hammer fez aos ecofeminismos… e porque me parecia bem óbvio que o texto da joana russ, tendo uma pegada ecofeminista mais […]

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