nózinho da diferença

23 Jun

outro dia fiquei com raiva lendo um livro. quem me conhece sabe que eu sou facilmente seduzida pelos livros, as autoras me levam onde querem e eu sigo de bom grado. quero ver até onde elas me levam… dificilmente fico com raiva ao ler um livro. com raiva da posição que a autora defende. a não ser em casos muito absurdos. mas autores absurdos (racistas, sexistas, blá) eu costumo não querer nem ler…

faz tempo, talvez um mês, que a michelli me emprestou um livro da berenice bento que se chama o que é transexualidade. demorei a pega-lo pra ler. peguei outro dia.  li a apresentação e fiquei morrendo de raiva. olha que engraçado. fiquei com tanta raiva que larguei o livro. o motivo da raiva era bobo que só vendo. e por isso compartilho. berenice termina sua apresentação com a seguinte frase:

“o objetivo desse livro é fornecer reflexões que possibilitem problematizar os limites das instituições sociais ao lidar com estas demandas e a necessidade de se repensar os critérios de normalidade e anormalidade que são postos em cena todas as vezes que estamos diante das pessoas que vivem o gênero para além da diferença sexual

fiquei com raiva dessa afirmação porque  penso muito que é o contrário. essa afirmação parece dizer (o que é bem repetido por ai) que a diferença sexual é binária (homem/mulher) e que o gênero é mais fluido e existem várias possibilidades dentro dele.  as configurações e diversidades de gênero subvertem a noção de que a diferença sexual seja binária. massa. o lance é que eu acho que isso está equivocado. gênero, pra mim, é o sistema de pensamento que age fazendo a gente pensar que nos dividimos em homens e mulheres. enquanto a diferença sexual, a realidade dos corpos, é muito mais múltipla que o binarismo de gênero pode conceber. tudo bem, cadê a judith butler falando que o sexo já é gênero desde sempre? não sei se isso ajuda, na verdade. sabe porque? por causa do problema da somatofobia. se – e a butler já falou isso – toda vez que a gente for falar de corpos a gente terminar falando de discursos parece que a gente some com qualquer possibilidade de agência que os corpos possam ter. não quero dizer que existam diferenças sexuais intocadas pelo discurso, mas queria pensar que as vezes os corpos escapam desse modelo binário de gênero. vou insistir no gênero como construção simbólica-política-imagética-seiláeuoque e na diferença sexual como o que excede, escapa. isso é pensar num sexo correndo pelado no campo (hahahaha ou seja, num sexo anterior a cultura?) talvez não. porque pode ser mesmo que essas outras configurações sexuais sejam mediadas e só existam em relação com a norma de gênero.

essa é uma questão conceitual que eu desconfio estar no coraçãozinho da discussão sobre ecofeminismo/ecoqueer (e de fato eu tropecei nela escrevendo sobre isso pro gt do fazendo gênero e agora empaquei, comofas?), sabe porque? porque diferença sexual – ao menos esta do lado do que ‘há no mundo’ e gênero no lado do que ‘fazemos no mundo’. natureza e cultura. os ecofeminismos transfóbicos estão do lado do binarismo porque tem uma noção de diferença sexual binária desse mesmo jeito que é definida pela berenice bento. que está longe do jeito que eu penso ela… não sei. tá dando nó na tripa.

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