[tradução importada!] feminismos materiais

18 Apr

tem mais de dois anos que terminei o mestrado e congelei qualquer atividade acadêmica. lá no mestrado falei sobre o conceito de diferença sexual desenvolvido por luce irigaray. não havia como não mexer no vespeiro que é, para os feminismos, o ‘essencialismo‘. comecei comprando o argumento de naomi schor de que o essencialismo não é um (unívoco, o mesmo, auto-idêntico) passando pelo questionamento de se-realmente-todo-essencialismo-é-ruim-feministicamente, e concluindo com a afirmação de que se essencialismo = determinismo biológico irigaray não é nem de longe uma essencialista. mas o que ficou apenas pincelado foi a afirmação com todas as letras de que uma reinvenção feminista (naqueles bons e velhos termos de donna haraway) da natureza pode ser uma janela aberta para fugirmos de um esquema conceitual aprisionante, fortemente aparentado com o patriarcado.

outro dia (não leiam isso literalmente, tem tempo, já!) recebi um e-mail lindo da querida sandra michelli (responsável pelo maravilhoso transecoqueer) propondo um esquema de parceria para publicar uma das traduções que ela está produzindo. tratava-se do livro material feminism editado pela stacy alaimo e que contém uma série de artigos que, em áreas diferentes da produção feminista, advogam pela necessidade de uma mudança de paradigma – aquela janela aberta lá do outro parágrafo – em prol de um que coloque a matéria, o corpo, o natural e o não-humano no centro da teorização feminista. óbvio que topei, tem tudo a ver com os caminhos que quero tomar e publicar essas traduções implica neccessariamente algum tipo de diálogo com essa literatura! portanto, galere, o parler femme será invadido de tempos em tempos por traduções michelísticas das feministas materiais – e comentários alícicos, de quando em vez também.

 

voltando pra natureza, só pra dar um gostinho-do-gostinho que é essa introdução, dêem uma olhada nesse trecho:

“A natureza, como entendida pelo feminismo material, raramente é um recurso inexpressivo e silencioso para as façanhas da cultura. Nem ela é o repositório do sexismo, do racismo, e da homofobia. Ao contrário, ela é uma força ativa e significativa, um agente em seus próprios termos; um reino de culturas múltiplas, inter e intra-ativas. Este tipo de natureza – uma natureza que não é, expressamente, a imagem do espelho da cultura – está emergindo a partir dos campos sobrepostos do feminismo material, do feminismo ambiental, da filosofia ambiental e dos estudos culturais do ambiente.”

reinvenção da natureza, para fora de uma relação de espelhar a cultura, e de ser base para sua especulação; a natureza emancipada de seu caráter de outro-de, expressando sua completa alteridade se parece com a reinvenção ou auto-invenção das mulheres no projeto de diferença sexual da irigaray. o parlerfemme: a construção ativa da mulheridade. só com um porém aqui pode ser que não seja falar e sim calar: cale a boca e perceba a natureza se construindo ativamente enquanto ela, outra.

>>> sem mais, vamos ao texto-  Introdução: Modelos Emergentes de Materialidade na Teoria Feminista  por Stacy Alaimo e Susan Heckman

[notinhazela: resolvi disponibilizar as traduções em pdf porque acredito que facilite a leitura e a circulação. fiz uma etiqueta específica para o livro ‘feminismosmateriais’, de maneira que fique fácil acessa-lo quando pronto, e/ou para que não se perca no mar (tomara que ele exista) de posts.] 

traduções em pdf

11 Apr

oi gente,

a onira tá fora do ar, então o parlerfemme tá aqui nesse endereço de novo. de lá pra cá acho que postei pouca coisa, se eu perdi muitos posts de lá pra cá eles não farão tanta falta (espero).

resolvi reavivar esse blog e, pra começar, partilhar umas traduções que fiz ou ajudei a fazer.

além das traduções recentemente publicadas pela ref do texto de keitaro morita [http://www.scielo.br/pdf/ref/v19n1/a18v19n1.pdf] e catriona sandilands [http://www.scielo.br/pdf/ref/v19n1/a14v19n1.pdf] sobre ecologias queer (junto com minha apresentação não-tão-queer-assim do dossiê [http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2011000100013] ) quero partilhar algumas outras traduções que não foram publicadas em lugar algum mas circularam pela internet quando oferecemos pelo NEDIG (núcleo de estudos em diversidade sexual e de gênero) a matéria feminismos e teoria queer (que muitas vezes era a batalha entre feminismos e teorias queer). são eles:

*versão em pdf da FAQ do Whipping Girl da Julia Serano que já está postada aqui nesse blog, mas pdf é um formato mais amigo, acho.

*três primeiros capítulos do livro Queer Theory, Gender Theory: an instant primer da Rikki Wilchins traduzidos pela tatiana nascimento, pelo joão paulo reys e por mim

*artigo de anne fausto-sterling pra revista science ‘os cinco sexos’ 

*cinco sexos revisitado 

*tradução feita por mim e pelo felipe areda do maravilhoso ‘a categoria de sexo’ da monique wittig

espero que seja massa para alguém. em breve traduções lindas feitas pela michelli do livro material feminism

sectarismo?

18 Nov

tem uma questão que parece que sempre volta. e ela tem a ver com os usos das diferenças. alguém que me conhecesse poderia dizer: ‘ah, alice, só porque tua mono foi sobre luce irigaray e a questão da diferença sexual que você vê isso em todo lugar’,  pode ser, mas na verdade a pegada é um pouco outra. vou contar dois ‘causos’ recentes para ilustrar:

1- no fazendo gênero desse ano fui falar sobre filosofia e sci-fi feminista. minha vontade era reler joanna russ, octavia butler e ursula le guin a partir do mundo novo das queer ecologies que me apresentou sandra michelli: queria não apenas pensar se a natureza construída por elas era uma natureza queer (mí argumenta que falta à esse arcabouço teórico das queer ecologies uma atenção maior à transexualidade – queer é uma palavra muito ampla, né?) mas também qual a imagem de transexualidade que aparece nesses textos (se é que aparece). tudo isso porque estava completamente contaminada da crítica que ida hammer fez aos ecofeminismos… e porque me parecia bem óbvio que o texto da joana russ, tendo uma pegada ecofeminista mais explícita e tendo uma pegada separatista lesbiana SUPER explícita poderia conter traços da tal transfobia identificada por ida hammer… poisbem. fui lá pra floripa falar nessa mesa cheia de professoras e alunas da literatura, eu era a alien na sala. comecei falando dos romances e da conexão que queria fazer com esse arcabouço teórico das queer ecologies. depois introduzi a distinção trans e cis para falar sobre o livro da le guin (a mão esquerda da escuridão). a fala foi animada e senti que capturei a atenção da sala. quando terminei uma das professoras presentes me perguntou porque insistir nesse dualismo trans/cis.

2- num debate recente num xou aqui do df falava-se de mobilidade urbana. o cara que dava a palestra argumentou que vivemos a cidade de maneiras diferentes, que o acesso de um cara negro à cidade é diferente do de um cara branco – em certos lugares ele é temido, em certos lugares isso o torna um alvo (da polícia por exemplo- tudo isso condicionado pelo racismo). que o acesso de um pedestre é diferente do acesso de um cara no seu carro. que o acesso de uma garota a cidade pode ser muito restrito (em termos de horários, de locais, de companhias, blá). ai uma menina que não era do df pediu a palavra e disse que ela percebia que aqui em brasília nós erámos muito sectaristas, que dividíamos tudo: homem/mulher, branco/preto, etc. e que essas diferenças só estavam em nossas cabeças. que nós todos somos, de fato, seres humanos.

o que respondi para uma e depois tentei responder a outra (e que vou continuar respondendo toda vez que encontrar esse tipo de fala na minha frente) é que existem diferenças no mundo. e mesmo que você creia que elas sejam construídas socialmente elas existem (a partir do momento que foram construídas) e não vão deixar de existir porque você quis assim (construtivismo não é igual a voluntarismo). vivemos numa organização social em que há assimetria de poder entre homens e mulheres desde o macro até o micropolítico – essa assimetria produz (e é produzida por?) diferenças.

assim também, vivemos numa organização social que a transexualidade é vista como desvio e a cissexualidade como a norma. um passo importante para chacoalhar a norma é NOMEAR. porque o de praxe, o normal, o pressuposto não precisa de nome. nome a gente dá pro desvio. se queremos desafiar a noção de que a transexualidade ou transgeneridade seja desvio é importante falarmos de cis, mostrarmos que se identificar com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer é apenas uma possibilidade de identificação dentre as possíveis (ou seja: pessoas cis também tem uma identidade de gênero). é um passo para minar o privilégio cis  – o privilégio de passar como normal.

sobre sermos todOs seres humanos falo outro dia…

biopolítica strikes back

11 Nov

juventude do meu brasil-sil-sil,

tô chocada com essa notícia abaixo. trata-se de um apanhado dos projetos de lei que estão tramitando nes

se exato momento para retroceder ainda mais no processo de descriminalização do aborto. aliás, são projetos para intensificar o controle sobre os corpos das mulheres, limitando os direitos sexuais das mulheres.

fiquei tão choks que resolvi postar aqui… então vamos lá. post pilantra só com links:

A tal “notícia” que não é tão notícia assim- Carta às(aos) deputadas(os) da comissão de seguridade social e família assinada por entidades feministas  – Cadastro obrigatorio de gravidez em pauta no Congresso Nacional.

– aproveito para divulgar dois textos da tatiana santos amiga e escola de feminismo para mim. eles são de 2009 e fazem parte da coluna que ela mantém no site da parada lésbica. os dois são sobre aborto e a clandestinidade e o risco de vida a que a criminalização dessa prática expõe a todas nós, vulnerabilizando de maneira mais contundente mulheres negras e pobres:  até quando calndestinas? e somos todas clandestinas

feminicídio

4 Aug

dia 15 o the curvature, um blog feminista gringo que acompanho e que costuma ter muitos posts sobre violência contra

mulheres fez um post sobre o caso eliza samudio. um post bem sensível. quando li o texto do the curvature escrevi para cara (a autora do blog) para compartilhar angústias e tentando explicar para ela como é a realidade da violência contra mulheres nesse país onde todo dia 10 mulheres são mortas vítimas de violência doméstica.

tate também postou sobre feminicídio na coluna dela no site da parada lésbica, como sempre contundente.

e a dju querida que está morando no méxico (e eu espero que volte logo) mandou para suas amigas um texto muito massa que me contemplou em muitos sentidos, vou colar ele aqui e espero que ela não se importe:

Escrevo um pouco para contar da vida uma pouco para desabar..
escrevo com a Alice, nossa companheira canina, deitada aqui na cama do meu lado, como está há 8 dias. ela foi atropelada, brincando numa merda de mundo feito mais pra carros que pra pessoas… por sorte só machucou uma patinha, mas ta bem feio, ferida aberta no osso….tamos dedicando quase todo o tempo a ela, e esperando que além dos curativos e remédios nosso amor ajude na cicatrização….ainda tem o risco de perder a pata, se infecciona, mas tamo fazendo de tudo pra que não aconteça. Enfim, enquanto ela esta em um dos pouco momentos de tranqüilidade, porque ainda é uma filhote, mesmo que seja grande de tamanho, e tem muita energia pra estar numa cama…. escrevo sobre o assassinato de eliza…. eu fiquei sabendo pela elisinha que o goleiro do fllamengo tinha matado a ex-namorada…fiquei em choque. Não porque não espere isso dos homens, mas porque faz alguns meses eu estava em frente a televisão gritando “Bruno! Bruno! O melhor goleiro do Brasil!” Ele não era só um jogador do flamengo,o que já seria suficiente pra eu morrer de vergonha, como disse Alice no texto do blog, mas pior, era meu jogador preferido do time hexacampeão.
Entrei em uma certa crise, se verdade, sem exageros, será que não posso gritar nunca o nome de um homem, porque tenho que contar sempre que ele pode ser um feminicida? Só posso torcer pro time
feminino do flamengo?(que acabo de me dar conta que não conheço, se é  que existe!) ta bem, a tradição do time não tem a ver com o a assassinato de Eliza, mas quantos homens feminicidas já não passaram pelo flamengo e eu gritei seus nomes?
No dia seguinte que elisinha me contou eu ia no tutelar(cárcere de adolescentes) e com todas as restriçõ
es de roupa pra entrar uma das possíveis era a do flamengo. Cheguei a vestir, e me senti mal, não tinha coragem de sair com ela, pensei, que melhor que deixar-la em casa, seria colocar um pet contra feminicidios…nao encontrei nenhum aqui em casa, todos estão em outras roupas. Vou pedir pra algum um, e só volto a vestir o manto rubronegro, se ele servir como uma mensagem anti feminicida, e só volto a ir num estádio ver o flamengo jogar se for com uma faixa contra o feminicidio, e nunca mais grito o nome de nenhum jogador, e ainda tenho esperanças que o futebol pode ser um espaço de reflexão política, e espero estar presente quando os caras façam piadas sobre o feminicido, os mesmo caras, provavelmente, que chamam viado quando um jogador faz alguma merda, espero estar aí pra dizer viado não! Heterossexual, assassino de mulheres.
O confronto é desgastante, mas necessário. Tenho vivido essa nova fase de explicar ao agressor o que é agressão de uma forma talvez um pouco extrema: entrando num cárcere de adolescentes, no auge da afirmação da masculinidade, com a disposição de que pelo menos um dos 50 que temos feito oficinas nunca mais maltrate uma mulher. É duro, mas tenho achado importante.
E já escrevi demais, né?
beijos saudosos
rubro-negra-roxa contra os feminicidios! Nem uma más! Se toca a uma nos toca a todas!

cada texto desse me contempla de maneira diferente, e parece que compartilha-los me desengasga um pouco… continuo falando pouco sobre o assunto e ainda muito assustada; fico com medo que toda essa exposição de casos sinistros de violência sexista na mídia sirva também para deslegitimar a Lei Maria da Penha. tudo bem, que to com a dju na desconfiança a respeito das instituições, internações, regime prisional e tudo mais. mas indecisão é o meu nome do meio, portanto penso frequentemente que talvez a impunidade,  seja legal, seja aquela que aparece na banalização do sexismo e da misoginia que faz com que boa parte das pessoas entendam violência contra mulheres não como um problema social, resultado de uma situação de assimetria de poderes entre homens e mulheres, mas como uma coisa normal e cotidiana. a crueldade cotidianizada vira ordinária, comum e portanto palatável. sem esquecer como a culpabilização das vítimas acaba por apagar o que há de cruel nesses atos.

acho portanto a lei uma conquista importante também no sentido de  reconhecer que em briga de marido e mulher devemos sim meter a colher. no sentido de caminhar pela compreensão de que a violência doméstica não é um problema privado, pessoal de um casal, que tenha a ver apenas com sua vida a dois, ou no caso de crimes brutais,que tenha a ver com uma doença psíquica do agressor,  mas sim o resultado de uma forma específica de organização social que está centrada na assimetria de poder entre homens e mulheres.  podemos chamar de patriarcado (é uma tentativa de fazer ver que o que é pessoal está contaminado de política).

colo aqui a definição de patriarcado que propusemos no guia do curso vidas plurais: enfrentando o sexismo e a homofobia nas escolas

Patriarcado e sociedade patriarcal

Chamamos de patriarcado a organização social centrada na diferença de poder e, portanto, na dominação das mulheres pelos homens. O regime patriarcal é uma expressão das ideologias sexistas, nele mulheres e homens tem papéis específicos e uma divisão sexual do trabalho está em operação, as mulheres aparecem como as cuidadoras e por isso a elas é reservado o espaço do lar, enquanto os homens aparecem como trabalhadores ou provedores. Além disso, no patriarcado a figura masculina é central para a organização familiar, o patriarca detém autoridade sobre os corpos e vontades das demais familiares

o curioso é que o brasil vive em um regime como esse, mesmo que a maioria de suas famílias não possua a figura do pai. é um patriarcado sem pais. mas ainda assim o poder do homem permanece…

cabia pensar num post pra frente essa coisa que dju chamou atenção. sobre o futebol no brasil e a construção de uma masculinidade escrota e violenta. torcida desorganizada feminista femi-fla já!

relacionado a esse post imenso veja o post da universidade livre feminista sobre a tipologia do feminicídio.

[la sangre] dobras para o copo menstrual

20 Jul

tenho percebido que muita gente chega aqui no meu blog procurando informações sobre inserção de copos menstruais. daí resolvi compartilhar um vídeo sobre dobras de copos.

para inserir um copo menstrual primeiro você deve dobrá-lo. a maioria dos copos vem com a sugestão da dobra “c” ou “u” que é simplesmente dobra-lo ao meio verticalmente.

porém, para algumas mulheres essa dobra pode não ser tão confortável assim. eu, por exemplo, prefiro a dobra chamada “triangulo”.

deixo aqui então, esse vídeo com diferentes dobras. tente algumas delas e veja qual é a mais confortável para você.

veja esse diagrama de inserção que eu tirei do site do mia cup, que aliás, é lindo de morrer:

[la sangre] copinho amarelado

19 Jul

gente,
as vezes devido ao uso e ao jeito que a gente lava nossos copinhos   eles ficam amarelados. minha mãe tem um protetor bucal de silicone (tipo aqueles de boxe, mas é devido ao bruxismo dela) e ela diz que ele amarelou com o tempo também.
porém, lendo algumas discussões na comunidade sobre copos menstruais no livejournal vi que algumas mulheres usam a técnica de deixar o copo tomar um pouco de sol.
testei deixei uma tarde toda, com esse sol sinistro da seca de brasília. na hora não achei que tinha melhorado não. mas hoje, no primeiro dia de menstruação quando fui esvaziar o copinho e lavar deu nitidamente pra perceber que ele está ótimo. bem transparentinho.
então, fica a dica: sol nas copinhas! o importante é ferver depois de deixar no sol, porque provavelmente vai ficar cheio de poeira e tal.

[as imagens são todas de garotas que fazem parte da comunidade do livejournal: morien_san, finkestein e m03m]

parler femme de cara nova

14 Jul

é. coloquei outro tema aqui… tava agoniada com o fato do tema velho não ter menus laterais… agora além de tudo está super rosa, menos morto, menos sóbrio, mais mulherzinha, né?
tá o cabeçalho não ficou bom… mas vamo que vamo.
por falar em cabeçalho, essa imagem fodona que aparece no cabeçalho é um cartaz feito pela kollontai-mágica-diniz para o retome as noites que aconteceu aqui em brasília dia 25 de novebro de 2006. um desenho xerocado com a frase “não responderemos à violência com silêncio” silkada em vermelho por cima. além disso, antes de colarmos os cartazes cada uma resolveu ‘personalizar’ com uma guache bem aguadinha cada cartaz. esse ai tá colado em uma das passarelas subterrâneas do eixão norte. lugar bem sinistro de atravessar depois que o sol vai embora.

aproveito pra fazer um post de links:

– a coluna da tate na parada lésbica tá atualizada e falando sobre ressignificar a palavra sapatão (antecipando o mês da visibilidade lésbica)!
– o blog na lâmina da faca também tá atualizado com uma entrevista marota com as jezebels, banda muito fera da dani de aracaju!
– essa pode ser velha, mas o aaarg.org tá de novo endereço!
– no blog adventures in feministory da bitch magazine tem um post bacana sobre a copa do mundo do ano que vem. é. você não leu errado. a copa do mundo de 2011 mesmo! a copa do mundo de futebol feminino que acontecerá na alemanha. é… será que o brazil-zil-zil vai sair do vice-campeonato?

tradução – a missão.

13 Jul

essa tradução da FAQ do livro Whipping Girl da Julia Serano eu mesma fiz ano passado para entrar como bibliografia da disciplina feminismos e teoria queer oferecida pelo NEDIG/CEAM/UnB; o nosso querido núcleo de estudos da diversidade sexual e de gênero. ela é bem bacana porque fala do uso do termo cisgênero ou cissexual. ela tava lá no confabulando (a wiki do corpus crisis) mas a servidora que o hospeda, a xanta parece que tá fora do ar, por isso resolvi postar aqui. espera-se que não seja um problema de servidor a livre sendo tirada do ar, porque tinha muito conteúdo massa lá.  ah, as fotos da julia serano tanto a sozinha sorrindo quanto a com essa outra gatinha (que eu não sei quem é) eu achei por ai na net e achei tão felizes (como diria minha sobrinha ana) que resolvi por aqui – também porque o post é grande e sem imagem é duris. visitem o blog dela !

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Whipping Girl FAQ: perguntas freqüentes sobre cissexual, cisgênero e privilégio cis[1].

Julia Serano

Ok, então esta é a quarta versão da minha lista FAQ de Whipping Girl[2], onde responderei a perguntas comuns e / ou esclarecerei algumas confusões sobre o que eu disse (ou tentei dizer) em WG. Esta lista de FAQ discute a distinção cis “/ trans” e o privilégio de pessoas “cis”.

A origem do termo “cis”

Eu encontrei algumas pessoas que acreditavam que eu inventei os termos “cissexual” e “cisgênero”, mas isso não é verdade. Eu faço a seguinte referência ao termo “cissexual” em meu livro:

Fiquei inspirada a usar o termo “cissexual” depois de ler uma das postagens de “intercâmbio”[3] de Emi Koyama em seu site (www.eminism.org/interchange/2002/20020607-wmstl.html). Aparentemente, o termo relacionado “cisgênero” foi cunhado em 1995 por um homem transexual chamado Carl Buijs.

Eu não sei muito sobre Carl Buijs ou sobre porque ele cunhou o termo “cisgênero”. Mas, como  sou uma cientista (campo de atuação no qual os prefixos “trans” e “cis” são usados rotineiramente), essa terminologia parece bastante óbvia, em retrospecto. “Trans” signica “através de” ou “no lado oposto de”, enquanto “cis” significa “no mesmo lado que”. Então, se alguém tem seu sexo atribuído ao nascer, mas posteriormente passa a se identificar e a viver como um membro do outro sexo, essa pessoa é chamada de “transexual” (porque ela cruzou de um sexo para outro),  e uma pessoa que vive e se identifica com o sexo atribuído no nascimento é chamada de “cissexual”.

Como uma pessoa que teve o sexo masculino atribuído no nascimento, mas que vive e se identifica com o sexo feminino, eu posso ser descrita como uma mulher transexual, uma mulher transgênero, ou uma mulher trans. Aquelas mulheres que (diferente de mim) tiveram o sexo feminino atribuído no nascimento podem ser de maneira similar descritas como mulheres cissexuais, mulheres cisgênero ou mulheres cis.

(nota: eu discuto os termos “transexual” e “transgênero” de maneira mais extensa em uma versão anterior da WG FAQ; ver http://juliaserano.livejournal.com/6195.html)

Porque usar o termo cis?

Eu suponho que pessoas diferentes podem dar diferentes respostas a essa questão, então é melhor que eu explique porque eu comecei a usar essa terminologia e porque eu escolho incluí-la em meu livro.

Comecei a escrever Whipping Girl em 2005, antes de ouvir falar da terminologia “cis”. O foco principal do livro era desmascarar boa parte dos mitos e concepções erradas que as pessoas têm a respeito de transexuais. Inicialmente, eu estava meio dispersa em minha abordagem: em um capítulo eu criticaria o jeito que o termo “passar” é usado com referência a transexuais. Em outro capítulo, eu criticaria o uso dos termos “garoto biológico” ou “garota genética” para descrever mulheres e homens não-trans. Em outro ainda, eu criticaria a maneira que transexuais são sempre retratadxs  como imitando homens e mulheres “reais” (leia-se: não-trans). E por ai vai. Depois de um tempo, ficou óbvio para mim que todos esses fenômenos decorriam da mesma suposição: que as identidades de gênero e os encorporamentos de sexo de pessoas transexuais são inerentemente menos naturais e menos legítimos que aqueles de pessoas não-transexuais.

Eu percebi que faria muito mais sentido escrever um capítulo do livro que expusesse completamente esse uso de dois pesos e duas medidas e descrevesse as diferentes formas que é empregado de maneira a marginalizar transexuais. Enquanto pensava nisso, tropecei na já mencionada postagem de Emi Koyama, no qual discute a utilidade dos termos cissexual, cisgênero e cissexismo. Ela diz:

“eles [esses termos] descentralizam o grupo dominante, expondo-o como apenas uma alternativa possível e não a ‘norma’ contra a qual pessoas trans são definidas.  Eu não espero que a palavra se popularize  logo, mas eu sinto que é um conceito interessante – um conceito feminista, de fato – e é por isso que o uso.”

Foi quando eu percebi que os ‘dois pesos’ que eu estava escrevendo sobre já possuíam um nome: cissexismo. E o capítulo de WG dedicado a desmitificar o cissexismo acabou tendo o seguinte título: “desmantelando o privilégio cissexual”.

As pessoas as vezes se assustam quando confrontam-se com novos termos/linguagem. Então, quando faço apresentações eu normalmente uso a seguinte analogia para ajudar a entender a utilidade dessa terminologia:

Há cinqüenta anos, homossexualidade era quase que universalmente vista como não natural, imoral, ilegítima, etc. Nessa época, as pessoas falavam regularmente sobre “homossexuais”, mas ninguém falava sobre “heterossexuais”. Em certo sentido, não existiam “heterossexuais” – todas aquelas pessoas que não praticavam sexo com pessoas de mesmo sexo eram consideradas simplesmente “normais”. Suas sexualidades eram não marcadas e pressupostas.

Se você fosse lésbica gay ou bissexual (LGB) nessa época, não havia jeito de convencer o resto da sociedade que você era marginalizada injustamente. Aos olhos da sociedade, ninguém estava te oprimindo, era simplesmente sua culpa ou problema seu que você fosse uma “anormal”. De fato, era bastante comum que as próprias pessoas LGB comprassem essa pressuposição de anormalidade, já que não havia outro caminho óbvio para encarar sua situação.

Mas então, ativistas do direito das pessoas gays começaram a desafiar essa noção. Eles apontavam para o fato de todas as pessoas terem sexualidades (não apenas pessoas homossexuais). As chamadas pessoas “normais” não eram realmente “normais” per se, mas sim “heterossexuais”. E as ativistas apontavam que heterossexuais não eram necessariamente melhores ou mais corretos do que homossexuais. Mas sim que o heterossexismo – a crença de que a atração e os relacionamentos  entre pessoas de mesmo sexo sejam menos naturais e legítimos que os heterossexuais –  institucionalizado em nossa sociedade  funciona de maneira a injustamente marginalizar aquelas pessoas que participam de relacionamentos de mesmo sexo.

Uma vez que reconheçamos que heterossexismo é um uso de dois pesos e duas medidas, torna-se evidente (percebamos ou não) que heterossexuais são privilegiados me nossa sociedade. Podem casar legalmente, podem demonstrar publicamente o seu afeto por seu outro significativo sem o medo de ser atacado, suas relações são tipicamente aprovadas e até mesmo comemoradas por outras pessoas, e por ai vai. Como todas as formas de privilégio, o privilégio heterossexual é invisível para aquelxs que o experienciam – o privilégio é simplesmente pressuposto. Ao discutir heterossexismo e o privilégio heterossexual as ativistas LGB fizeram grandes ganhos ao longo do tempo no esforço de nivelar o terreno da orientação sexual em nossa cultura.

Podemos entender facilmente o poder em potencial da terminologia cis/trans simplesmente substituindo na analogia acima os termos “heterossexual” por “cissexual”, “heterossexismo” por “cissexismo” e “privilégio heterossexual” por “privilégio cissexual”.

Críticas a terminologia cis/trans

Apesar de cissexismo e privilégio cissexual serem conceitos úteis, já encontrei muitas pessoas (tanto cis como trans) que não gostam da distinção cis/trans. Aqui se segue o que penso sobre as críticas mais comuns:

1) a distinção soa muito acadêmica/jargônica; não podemos falar em uma linguagem mais simples?

Primeiro de tudo, “cis” não é um termo acadêmico, é um termo que veio do ativismo. E soa como um jargão simplesmente porque a maioria das pessoas não esta familiarizada a ele. Num postagem recente do Feministing[4] sobre esse tópico, cannonball coloca a seguinte questão:

“palavras que começam com cis podem parecer esotéricas, mas quantas vezes criticou-se o uso de palavras como “sexismo” e “heterossexismo” por grupos que trabalham para o fim da opressão, alegando-se que tais palavras eram acadêmicas demais?

(note-se: a postagem de cannonball foi uma resposta a dois excelentes postagens anteriores feitas por Queen Emily no blog Questioning Transphobia, chamadas: Cis is not an “academic” term e  Cis (2)[5]. Nessas postagens, ela entra mais profundamente na questão de se cis-é-um-termo-acadêmico do que eu faço aqui.)

Para ser sincera, quando alguém faz a queixa porque-não-podemos-falar-em-uma-linguagem-mais-simples eu fico com vontade de bater-lhe na cabeça com uma pilha  de livros de George Orwell. Nossas idéias/pensamentos/conceitos/crenças são bastante constrangidos pelas palavras que estão a nossa disposição. Se não tivéssemos os termos heterossexual, heterossexismo e privilégio heterossexual aquelas de nós que são LGB não teriam a linguagem para descrever (e desafiar) a marginalização que enfrentamos por dormirmos com um tipo de pessoa. Se nós todas simplesmente falássemos em “linguagem simples” por volta de 1950, onde você acha que estaríamos nos dias de hoje com relação a discriminação baseada em orientação sexual?

2) comentário frequente entre pessoas cis: “mas eu não me identifico com o termo cis”

Cis não é para ser uma identidade. Ao invés disso, o termo simplesmente descreve a forma que uma pessoa é percebida por outras.

Uma analogia: eu não me identifico de maneira forte com os termos “branca” e “corporalmente não-deficiente”[6] embora eu seja ambas as coisas. Uma vez que, eu pude percorrer meu caminho pelo mundo sem ter que dar muita atenção para esses aspectos de minha pessoa. E é exatamente esse o ponto: é o meu privilégio branco e não-deficiente que permite que eu não tenha que lidar com racismo ou deficientismo [ableism] cotidianamente.

Geralmente, apenas nos identificamos com aqueles aspectos de nós mesmas que são marcados. Por exemplo, eu me identifico como bissexual, e como uma mulher trans, porque essas são questões que eu tenho que lidar o tempo todo (por causa do preconceito de outras pessoas). Apesar de não me identificar fortemente como branca ou não-deficiente, tenho a possibilidade de me livrar completamente desses rótulos, isso seria negar o privilégio branco e não-deficiente que eu experimento regularmente

3) comentário frequente entre pessoas trans: “eu não gosto da distinção entre cis/trans porque eu não acho que eu sou diferente de uma mulher (ou homem) cis.”

Eu consigo me relacionar a esse sentimento. Porque no fim das contas, eu não acredito que eu (como uma mulher trans) seja inerentemente diferente de uma mulher cis. Tal ponto de vista seria essencialista/universalista, uma vez que assumiria que todas as mulheres cis são “as mesmas” entre si e inteiramente distintas de mulheres trans. Isso ignora a grande variação entre e a sobreposição entre mulheres cis e trans.

Quando uso os termos cis/trans na é para falar sobre diferenças reais entre corpos/identidades/gêneros/pessoas cis e trans, mas sobre diferenças percebidas.  Em outras palavras, apesar de não achar que meu gênero seja inerentemente diferente do de uma mulher cis, estou ciente de que a maioria das pessoas tendem a ver meu gênero de forma diferente (isso é, como menos natural/válido/autêntico) da que vêem o gênero de uma mulher cis.

Veja como eu coloquei essa questão em WG:

[Algumas pessoas] podem recusar boa parte dessa linguagem como algo que contribui para um “discurso reverso” – isto é, ao descrever-me como uma transexual e ao criar termos trans-específicos para descrever minhas experiências, eu estaria simplesmente reforçando a distinção entre transexuais e cissexuais que me marginalizaram. Minha resposta a esses dois argumentos e a mesma: eu na acredito que transexuais e cissexuais são inerentemente diferentes entre si. Mas, as formas vastamente diferentes pelas quais somos percebidas e tratadas por outras pessoas (baseadas em sermos ou não trans) e o modo que essas diferenças têm impacto sobre nossas experiências sociais físicas, tanto com a masculinidade quanto com a feminilidade, que são únicas, levou muitas transexuais a verem e entenderem o gênero de maneira muito diferente de suas contrapartes cissexuais.E, enquanto transexuais são extremamente familiares com as perspectivas cissexuais do gênero (na medida em que elas são dominantes em nossa cultura), a maioria das pessoas cissexuais não tem qualquer familiaridade com as perspectivas trans. Assim, pedir-me para usar apenas as palavras com as quais pessoas cis estão familiarizadas para descrever minhas experiências gendradas  é parecido com pedir para uma musicista, quando for descrever música, usar apenas palavras que não-musicistas entendem. Pode ser feito, mas alguma coisa crucial certamente seria perdida na tradução. Assim como uma musicista não pode explicar completamente sua ração a uma música particular sem trazer conceitos como “tom menor” ou “compasso”, existem também certas palavras e idéias  trans-específicas que aparecerão ao longo desse livro e que são cruciais para que eu posa transmitir precisamente meus pensamentos e experiências com relação ao gênero. Para ter uma discussão iluminada e cheia de nuances sobre minhas experiências e perspectivas como uma mulher trans, nós precisamos começar a pensar em termos de palavras e idéias que descrevam de maneira acurada essa experiência.

As limitações do privilégio cis:

Uma amiga minha me contou recentemente de uma mulher trans que ela conhece e que reclamou que outras mulheres estavam exercendo seu privilégio cis sobre ela sempre que elas reclamavam sobre sua menstruação. Disse o seguinte a essa amiga:

Eu entendo o que ela quer dizer, mas eu hesitaria em chamar isso de privilégio cissexual. Eu procuro usar esse termo apenas quando me refiro à legitimação social e legal (isto é, que o sexo legal e identidade de gênero de  pessoas cis sejam pressupostos e considerados válidos de uma forma que os de uma pessoa trans não são). Nesses casos, está em jogo um uso evidente de dois-pesos-e-duas-medidas, e as pessoas cis deveriam se tocar que pressupõem coisas que outras pessoas não podem.

Mas uma vez que entramos na questão da biologia ou dos corpos (e não os direitos associados a eles), a coisa se torna mais assustadora. Por exemplo, eu tenho privilégios de cor, não porque minha pele é menos pigmentada do que a pele de pessoas de cor, mas porque minha brancura me permite não ter que enfrentar cotidianamente o racismo. Eu tenho privilégios ligados a não ser deficiente física, não porque eu posso ver ou andar “de boa”, mas porque (numa sociedade que presume que todo mundo pode ver placas ou subir um lance de escadas se necessário) eu não enfrento os mesmos obstáculos ou barreiras em minha vida cotidiana que pessoas com diferentes capacidades enfrentam.

Às vezes, quando outras mulheres reclamam sobre suas menstruações ou gravidezes, eu fico bem triste. Apesar de não duvidar que essas experiências sejam doloridas e difíceis, eu me sinto mal por não ter a oportunidade de escolher engravidar se eu quisesse (eu não tenho certeza que eu gostaria de engravidar se eu pudesse, mas seria bom ter essa opção aberta para mim). Eu tenho uma prima cis que sempre teve uma menstruação irregular e ficou perturbada, quando já na idade adulta, descobriu que não conseguia engravidar (ela e seu marido acabaram por adotar depois de anos de tratamento para fertilidade). Mesmo que nunca tenhamos conversado sobre esse assunto, eu tenho certeza que nós duas nos relacionamos com nossa situação parecida de maneiras bem diferentes. Para mim, essa questão está embalada pela minha tristeza de não ter nascido fêmea. Para ela (tendo sido socializada como mulher) está mais ligada a ter imaginado desde criança que algum dia ela ficaria grávida e teria suas próprias crianças.

Nós duas somos biologicamente incapazes de menstruar regularmente ou engravidar. Nós duas experimentamos tristeza e sentimento de perda perante o fato de ser-nos negado algo que outras mulheres assumem como certo. Mas dizer que pessoas que menstruam tem privilégio cis, ou privilégio menstrual, joga com uma mentalidade patologizante. Joga com a idéia de que o meu corpo (e o corpo dela) está intrinsecamente “errado” enquanto outros corpos estão “certos”. Eu sei que algumas pessoas trans vêem as coisas dessa maneira, mas eu entendo essa visão como desempoderadora. Eu gostaria de ter nascido fêmea e que eu pudesse menstruar, da mesma forma que eu gostaria de não ter tido câncer de pele dois anos atrás, ou de não ter hipotireoidismo, ou que eu não precisasse de óculos bifocal (e eu só tenho 41!), etc. Mas eu não me sinto como se algum privilégio  me fosse negado porque meu corpo não é da forma que eu gostaria que ele fosse. A questão só se torna sobre privilégios quando, por causa do meu corpo e situação, eu sou considerada inferior ou menos legítima que outras pessoas.

Eu e minha prima partilhamos algumas similaridades, mas também algumas diferenças. Ela foi qualificada para adoção apesar de ser infértil. É bem provável que se eu requeresse adoção (com base na minha infertilidade por causa da transexualidade) ela seria negada por causa do meu status trans. Seria um caso evidente de privilégio cis, se a adoção fosse negada por essa razão. E apesar de não considerar privilégio cis quando outras mulheres reclamam de suas menstruações, eu já tive que ouvir de algumas mulheres cis o quanto eu sou “sortuda” de não menstruar. Eu sei, de fato, que elas nunca diriam a alguém como minha prima (uma mulher cis infértil) que ela é, pela mesma razão, sortuda. Neste caso, eu posso dizer que o privilégio cis está operando (por causa dos dois pesos…)

Fico feliz que WG tenha ajudado a popularizar o uso dos termos cissexismo e privilégio cis. Mas é importante lembrarmos que todas nós somos privilegiadas de algumas formas e marginalizadas em outras. Como pessoa trans, eu sou muito sensível ao privilégio cis, mas não tão ligada aos meus privilégios de pessoa banca ou capaz. No passado, eu presumi que uma pessoa estava exercendo seu privilégio cis sobre mim e depois descobri que ela nem sabia que eu era trans. E eu já fui chamada atenção (corretamente) quando inadvertidamente disse algo que estava calcado em meu privilégio branco ou capaz, sem ter consciência disso.

É importante que tenhamos isso em mente em contextos feministas, uma vez que tanto mulheres trans como cis são marginalizadas de formas  que se sobrepõem em grande parte, mesmo que sejam as vezes diferentes. Em geral, foi uma merda ter sido forçada contra minha vontade a ser um menino, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que eu não experimentei algumas vantagens. Por exemplo, em certo sentido, eu tive bem mais liberdade do que minhas irmãs. E eu não posso dizer honestamente, caso tivesse sido criada como uma mulher, se eu me tornaria uma cientista ou não. De mesmo jeito que eu não tenho dúvida de que existem alguns aspectos de ser criada como mulher que são uma merda. Mas também existem algumas vantagens (como por exemplo, que as pessoas levem a sério a sua identidade de gênero, não ser forçada a ser um menino, etc)

Eu quero ser parte de uma comunidade feminista na qual possamos falar de assuntos específicos a cis-mulheres e assuntos específicos de trans-mulheres sem que o primeiro grupo seja automaticamente recriminado por exercer privilégio cis e o segundo grupo seja automaticamente recriminado por exercer um suposto privilégio masculino. Para alcançarmos isso, é importante desafiar a opressão e o privilégio sempre que eles ocorrerem. Mas também é importante escutarmos ao que as outras têm para dizer, dar as pessoas o benefício da dúvida sempre que for possível. Algumas pessoas são teimosamente preconceituosas e repetem ofensas, e é óbvio que elas têm que responder a isso. Mas a maioria de nós (espero eu) quer genuinamente entender e ser entendida. Discussões sobre “privilégio” deveriam servir para ensinar (e aprender) como vemos e experimentamos o mundo de maneira distinta; como cada uma de nós tem pontos-cegos; como cada uma de nós faz pressuposições incorretas e prejudiciais a outras pessoas. Discutir “privilégios” deveria servir como uma ferramenta e não como uma arma a ser empunhada.


[1] FAQ retirada do blog da autora, http://juliaserano.livejournal.com traduzida por Alice Gabriel.

[2] Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity é o nome do livro de Julia Serano publicado em 2007.  Escolhi não traduzir o título que é algo como ‘garota esperta’.

[3] Na seção de intercâmbio, Emi Koyama (re)posta respostas a emails e fóruns online.

[4] http://community.feministing.com/2009/05/cis-as-an-academic-term.html

[5] Respectivamente: http://questioningtransphobia.wordpress.com/2009/04/25/cis-is-not-an-academic-term/ e http://questioningtransphobia.wordpress.com/2009/04/30/cis-2/

[6] Uso a expressão ‘corporalmente não-deficiente’ para traduzir a expressão ‘able-bodied’. É complicado traduzir as expressões ‘able’, ‘ableism’ porque a noção de deficiência parece bastante complicada.

tradução!

12 Jul

A MULHER BIÓTICA: FALANDO SOBRE TRANSFOBIA E ECOFEMINISMO
COM IDA HAMER

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Entrevista extraída daqui e traduzida pela bióloga e ativista ecoqueer Sandra Michelli


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Ida Hamer tem escrito no THE VEGAN IDEAL por vários anos como uma forma de analisar e desconstruir opressões que se sobrepõem. Seu trabalho é focado em desfazer a transfobia nas comunidades vegetarianas e ecofeministas. Ida estava cansada de falar recentemente comigo sobre como o privilégio cissexual mina muito da escrita ecofeminista e como ela tem esculpido um espaço seguro para si mesma dentro de um movimento muitas vezes anti-trans.


Várias escritoras ecofeministas têm escrito de uma forma profundamente ofensiva, muitas vezes terrivelmente errada, sobre as pessoas trans e têm feito uma série de prejuízos para a credibilidade do movimento como sendo aberto, aceitável e que trabalha pela libertação de todas as pessoas. Porque você acha que a transfobia persiste e continua a vir a todo tempo na retórica e ativismo ecofeminista?

Para compreender porque a transfobia e o cissexismo persistem e são continuamente perpetuados por todas as comunidades feministas, particularmente na comunidade vegetariana ecofeminista, é importante considerar as origens do advocacy anti-trans como um projeto consciente de destaque, as feministas de uma elite branca nos anos 1970. No final dos anos 60 e início dos anos 70, as pessoas trans foram muito ativas nos movimentos de mulheres e de libertação queer. As rebeliões na Cafeteria Compton e de Stonewall dos anos 60 são evidências disso, assim como o são mulheres como Beth Eliot das Filhas de Bilits, Sandy Stone de da Olívia Records, e a veterana de Stonewall Silvia Rivera que foi membro fundadora da Frente de Libertação Gay e da Aliança Ativista Gay.

Portanto, é importante ter em mente que as mulheres trans, e as pessoas trans em geral, são uma parte integrante do início do movimento de libertação das mulheres. Mas da metade para o final dos anos 70, havia uma conspiração transfóbica dentro do feminismo para sistematicamente remover e excluir as pessoas trans, especialmente as mulheres transexuais, dos movimentos de mulheres e queer. Por exemplo, Rivera foi alvejada e fisicamente atacada por mulheres cissexuais separatistas numa manifestação pelos direitos dos homossexuais. Eliot foi alvejada por Robin Morgan e separatistas numa conferência de mulheres lésbicas. Stone foi atacada por Janice Raymond e forçada a sair da Olívia Records, com ameaças de um boicote. E Gloria Steinem da Revista Ms. abertamente atacou
mulheres trans.

Ao longo das últimas décadas, tem havido um aumento na organização e ativismo das pessoas trans, mas nós continuamos a ser alvo de uma reação sistemática de elite das feministas. As chamadas políticas das “mulheres-nascidas-mulheres” ainda são usadas para excluir as mulheres transexuais da participação em nosso próprio movimento. E enquanto as mulheres transexuais são desproporcionalmente alvo de sem-abrigo, prisões, e a violência física e sexual, uma aliança entre as feministas anti-trans e o Estado tem sido usada para burlar os direitos humanos a fim de impedir-nos de ter acesso a vários privilégios e serviços vitais para as mulheres. As mulheres trans tem sido forçadas para fora das organizações que prestam serviços às mulheres, que elas mesmas ajudaram a criar.
Gostaria também de salientar que enquanto o The Sexual Politics of Meat de Carol J. Adams é, de várias formas, considerado o livro para uma abordagem feminista da defesa dos animais não-humanos, este fato não pode ser dissociado do ódio e perseguição anti- trans que teve início nos anos 70. As raízes do The Sexual Politics of Meat têm origem no relacionamento de Adam com Mary Daily, que foi seu professor e mentor em meados dos anos 70. Esta relação, a qual Adam credita com a gênese de seu livro e ativismo, teve lugar ao mesmo tempo em que Daily estava escrevendo o seu ódio no livro anti-trans Gyn/ Ecology. Também foi ao mesmo tempo em que Daily estava aconselhando Raymond, outra aluna dela, na dissertação que se tornaria o livro The Transsexual Empire.

Assim, as origens do que atualmente é tido como a principal fonte de uma abordagem feminista para a defesa dos animais não-humanos tem suas origens num ambiente que foi o epicentro do sentimento anti-trans nos anos 70. No prefácio de The Sexual Politics of Meat, Adams começa seu livro com o que ela chama de “uma homenagem tranqüila pelo apoio inicial de Mary Daly ao meu trabalho bem como pela sua atual visão biofílica.” O que não é reconhecido é que a “visão biofílica” de Daly clama pela eliminação das transexuais, pessoas que Daly descreveu como “necrófilas” e, portanto, fora e contra a visão de mundo vegetariano ecofeminista.

Basicamente as pessoas trans nunca foram chamadas para serem incluídas no ecofeminismo. Enquanto uma nova geração de ecofeministas cissexuais simplesmente não podiam pensar em pessoas trans devida a nossa ausência forçada, o apagamento e a invisibilidade das pessoas trans no ecofeminismo não pode ser visto como um simples descuido. A maioria das figuras de destaque no ecofeminismo vegetariano teve em algum momento consciência sobre as pessoas trans e apoiou ativamente a nossa exclusão – isso inclui aqueles pseudo aliados que poderiam dizer que apoiavam as pessoas trans na esfera privada, ainda apóiam ativamente o nosso apagamento, quando ignoram a nossa opressão enquanto elogiam publicamente o trabalho de seus colegas transfóbicos.

A maioria das figuras de destaque no ecofeminismo vegetariano pensou, em algum momento, conscientemente sobre as pessoas trans e apoiou ativamente a nossa exclusão – isso inclui aqueles pseudo aliados que poderiam dizer que apóiam as pessoas trans na esfera privada, ainda apóiam ativamente o nosso apagamento na medida em que elogiam publicamente de seus colegas mais transfóbicos.

Quando questionadas sobre o atual estado cissexista das coisas, ecofeministas anti- trans, muitas vezes, insistem em que deixemos as coisas por isso mesmo. Mas desde de que a exclusão das pessoas trans já foi bem estabelecida, concordar em não fazer nada simplesmente mantém as pessoas trans invisíveis e o status que do jeito que está.
É fácil ignorar um grupo de pessoas oprimidas uma vez que elas tenham sido sistematicamente excluídas e alienadas de um movimento ao qual legitimamente elas pertencem. Não teriam as pessoa trans sido forçosamente exiladas do movimento de mulheres ao longo dos anos 70 e posteriormente impedido de regressar – às vezes com apoio da exclusão pelo Estado das proteções dos direitos humanos – as coisas teriam sido totalmente diferentes agora.

O ciclo só será quebrado quando as feministas cissexuais assumirem a responsabilidade pelo cissexismo e se tornarem elas mesmas e suas colegas responsáveis. Isso inclui seguir o exemplo das pessoas trans em questões trans, especialmente as mulheres trans em se tratando de nossa exclusão das comunidades feministas. Também é importante reconhecer que nem todas as pessoas trans têm sido afetadas da mesma forma. Muito freqüentemente os eventos e serviços para mulheres afirmam ser “trans-inclusivos” mas são restritos às mulheres cissexuais, homens trans e pessoas que variam em gênero mas são fêmeas, continuando assim o permanente legado de excluir especificamente as mulheres transexuais.

Á luz do tipo de tratamento que as pessoas trans tem recebido nas comunidades ecofeministas, quais formas de trabalho você tem desenvolvido para combater os esteriótipos cissexistas e encontrar um espaço seguro nos chamados círculos de anti- opressão?
Reconhecer e desafiar as formas como a escrita e a defesa em torno de uma abordagem feminista para o advocacy dos animais não-humanos tem sido dominado pelo apagamento das pessoas trans por parte das ecofeministas vegetarianas é, para mim, uma passo importante para se criar um espaço seguro para as pessoas trans se assumirem e exercerem a defesa feminista e dos animais não-humanos.

Eu fiz várias ações feministas de advocacy para os animais não-humanos antes de me assumir como trans. Naquela época eu estava consciente, na qualidade de uma mulher transexual enrustida, de que a aceitação como uma defensora feminista dos animais não humanos implicava em me manter enrustida e me comportando como um homem cissexual. Colocando de outra forma, ter uma perspectiva feminista para a defesa dos animais não- humanos eram em grande medida um privilégio de passar por uma pessoal cissexual, o que requeria que eu internalizasse as formas como as ecofeministas vegetarianas estavam perpetuando a opressão anti-trans.

O meu trabalho em The Vegan Ideal tem de fato sido meu primeiro trabalho fora do armário para desafiar a ideologia anti-trans e criar um espaço seguro para que eu possa explorar o advocacy anti-opressão, particularmente aqueles relacionados aos animais não- humanos. Os meus posts sobre como o cissexismo está entrelaçado ao ecofeminismo vegetariano tem sido parte de minha própria luta para me afirmar como uma mulher, uma feminista, e uma defensora dos animais não humanos. Eu agora rejeito aceitar qualquer abordagem de advocacy ou de trabalho anti-opressão que exija que eu, ou quem quer que seja, negue uma parte de quem somos e internalize nossa opressão para que possamos participar.

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