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ajuda dijêi!

25 Jun

dijêi, ajuda esse corpo!

eu ainda vou entender porque diabos as questões não se fecham para mim. me encontro sempre rodando muitchoslokas numa espiral insana de ideias… depois daquele post de ontem(? é. o calendário tá brincando de esconde-esconde comigo- tô perdida no tempo) voltei pra introdução a filosofia feminista da alison stone procurando entender mais (ou menos!). ando maluca e preguiçosa, lendo coisas a passos de tartaruga. tinha largado a alison bem no meio do capítulo sobre gênero. lá ela discute bastante a re-conceituação de gênero que a butler faz. acho que deu mais umas ideias e – em tempos de copa – embolou um pouco mais o meio de campo.

porque? ixi, tem alguns porques… vamos lá:

1) porque a noção de gênero da butler é curiosa. gênero é ao mesmo tempo um ideal regulatório, um conjunto de normas que regulam e prescrevem como deve ser um sujeito, com relação a seu sexo, sexualidade, identidade, comportamento, blá. e também os “estilos de comportamento corporal individual” (essa expressão é da stone). acho curioso que as duas coisas sejam chamadas de gênero (tá, pode ser que chamar a primeira de normas de gênero e a segunda de gênero melhore, mas – tenho que fuçar no GT – acho que ela fala do gênero também como esse conjunto de normas). perceba. aquela divisão que eu tentei fazer entre diferença sexual e gênero é justamente essa que acho que falta aqui. o gênero como norma que tenta capturar a diferença sexual. tá. ok, você pode argumentar que o bacana da butler é que ela entende que é a própria relação com a norma – e não algo anterior a ela, que poderia servir para a naturalizar o sexo – que gera as diferentes formas de ser no mundo, mesmo aquelas que transgridem o que é considerado como normal. por isso, por essa relação íntima entre o que ‘subverte’ a norma e a própria norma, faria sentido chamar tanto a estrutura normativa, quanto as diferentes expressões de si de ‘gênero’.

2) porque ainda falando de butler a alison stone (cara, tá me parecendo uma ótima tradução da butler pro inglês! hahahaha reciclar piada é palha!) tem uma sacada bruta: que as normas de gênero, para butler, poderiam ser mais frouxas ou fluidas, mas não são porque aquela infame matriz heterossexual opera como um limite. assim normatividade de gênero passa a ser heteronormatividade. e: o gênero deve, por isso, expressar o sexo; feminilidade e masculinidade devem ser opostas; heterossexualidade é normal porque os gêneros precisam um do outro como complemento (isso é livre tradução da stone, tá? pg 67). mas mesmo assim, ela termina o sumariozinho em 6 pontos que faz da butler dizendo que o objetivo imaginado por butler é abolir o gênero e ela chama de gênero ” a ideia que machos e fêmeas devam agir de maneiras sistematicamente diferentes”. daí o nó na tripa volta. porque vocês lembram que toda a lengalenga começou por causa da frase da berenice bento (altamente butleriana)? a meta da berenice é viver o “gênero para além da diferença sexual”. mas aqui a stone afirma – e a butler o faz também só tô com preguiça de procurar no gt – que o gênero é esse ideal normativo ou regulatório que instaura isso que a berenice bento chamou de diferença sexual. daí vocês entendem porque não dá pra usar o gênero para as duas coisas? porque quando a butler fala em abolir o gênero ela fala em abolir a norma, certo? para que os estilos corporais possam proliferar. certo? ou abolir tudo isso? ou abolir a norma implica em abolir os estiloooooossss? deu nó na tripa de vocês também?

3) porque lá pelas tantas alison stone começa a discutir as filosofias feministas sobre o corpo. e ai fiquei apaixonada a primeira vista pela moira gatens. preciso ler ela urgentemente. ela usa merleau-ponty e sua a noção de schema corporel para pensar que nossos corpos são imaginários. o que ela defende é que ao longo de nossa vida criamos inconscientemente mapas de nossos corpos, uma imagem de como somos corporalmente; essa imagem começa bem calcada na fantasia, como quando somos pequenas e achamos que somos bem mais forte ou rápidas do que de fato somos. esses mapas vão se reconfigurando a todo tempo e ao mapear as diferentes partes de nosso corpo damos a elas significados e investimentos emocionais diferentes (assim, como a wittig costumava dizer a gente erogeniza certas partes, por exemplo) e além disso, nosso mapeamento corporal está sempre mediado por noções externas: ideias comuns sobre o que são (e para que servem! afffff) certas partes do corpo, mas também sobre que tipo de corpo é desejado, interessante, valorizado… tá. isso é muito fera, primeiro porque AMO essas conexões de espaço-corporalidade. mas não é bem o ponto que é cabulosinho e que diz respeito ao post anterior. o lance é: a moira gatens aceita (coisa que em butler fica meio ambíguo) que os corpos tem propriedades biológicas independentemente da cultura (calmaaaaaaaaa! não fica nervosa, querida, termina de ler), mas que não são essas propriedades que fazem alguém ser macho o fêmea! (tada! amei) é o nosso imaginário social que presume que todo mundo é macho ou fêmea e, como resultado disso, as pessoas constroem seus mapas corporais dando uma atenção especial aquelas propriedades biológicas que se enquadrariam nas ideias sociais sobre masculinidade e feminilidade.

pra mim, ela ahazou brutalmente. ainda mais que isso funciona muito bem com a noção que a própria alison stone defende: de que uma pessoa é considerada masculina ou feminina não por uma característica específica (uma essência, uma coisa que tem e não pode deixar de ter) mas por uma porção de elementos; ela acha que masculinidade ou feminilidade são ‘cluster concepts’ ou seja, conceitos de aglomerados. existem uma porção de características que podem fazer alguém ser considerada como mulher, quando uma indivídua (rá) tem um número significante dessas características, pressupomos que ela é mulher.

nózinho da diferença

23 Jun

outro dia fiquei com raiva lendo um livro. quem me conhece sabe que eu sou facilmente seduzida pelos livros, as autoras me levam onde querem e eu sigo de bom grado. quero ver até onde elas me levam… dificilmente fico com raiva ao ler um livro. com raiva da posição que a autora defende. a não ser em casos muito absurdos. mas autores absurdos (racistas, sexistas, blá) eu costumo não querer nem ler…

faz tempo, talvez um mês, que a michelli me emprestou um livro da berenice bento que se chama o que é transexualidade. demorei a pega-lo pra ler. peguei outro dia.  li a apresentação e fiquei morrendo de raiva. olha que engraçado. fiquei com tanta raiva que larguei o livro. o motivo da raiva era bobo que só vendo. e por isso compartilho. berenice termina sua apresentação com a seguinte frase:

“o objetivo desse livro é fornecer reflexões que possibilitem problematizar os limites das instituições sociais ao lidar com estas demandas e a necessidade de se repensar os critérios de normalidade e anormalidade que são postos em cena todas as vezes que estamos diante das pessoas que vivem o gênero para além da diferença sexual

fiquei com raiva dessa afirmação porque  penso muito que é o contrário. essa afirmação parece dizer (o que é bem repetido por ai) que a diferença sexual é binária (homem/mulher) e que o gênero é mais fluido e existem várias possibilidades dentro dele.  as configurações e diversidades de gênero subvertem a noção de que a diferença sexual seja binária. massa. o lance é que eu acho que isso está equivocado. gênero, pra mim, é o sistema de pensamento que age fazendo a gente pensar que nos dividimos em homens e mulheres. enquanto a diferença sexual, a realidade dos corpos, é muito mais múltipla que o binarismo de gênero pode conceber. tudo bem, cadê a judith butler falando que o sexo já é gênero desde sempre? não sei se isso ajuda, na verdade. sabe porque? por causa do problema da somatofobia. se – e a butler já falou isso – toda vez que a gente for falar de corpos a gente terminar falando de discursos parece que a gente some com qualquer possibilidade de agência que os corpos possam ter. não quero dizer que existam diferenças sexuais intocadas pelo discurso, mas queria pensar que as vezes os corpos escapam desse modelo binário de gênero. vou insistir no gênero como construção simbólica-política-imagética-seiláeuoque e na diferença sexual como o que excede, escapa. isso é pensar num sexo correndo pelado no campo (hahahaha ou seja, num sexo anterior a cultura?) talvez não. porque pode ser mesmo que essas outras configurações sexuais sejam mediadas e só existam em relação com a norma de gênero.

essa é uma questão conceitual que eu desconfio estar no coraçãozinho da discussão sobre ecofeminismo/ecoqueer (e de fato eu tropecei nela escrevendo sobre isso pro gt do fazendo gênero e agora empaquei, comofas?), sabe porque? porque diferença sexual – ao menos esta do lado do que ‘há no mundo’ e gênero no lado do que ‘fazemos no mundo’. natureza e cultura. os ecofeminismos transfóbicos estão do lado do binarismo porque tem uma noção de diferença sexual binária desse mesmo jeito que é definida pela berenice bento. que está longe do jeito que eu penso ela… não sei. tá dando nó na tripa.

que fera! novos blogs na blogosfera

24 Mai

dois novos blogs chegam para contaminar a blogosfera com coisas feras.

o primeiro é o (trans)ecoqueer da querida sandra michelli. que depois de fechar o natureza torta sentiu falta de blogar e voltou! o blog é sobre questões de ecologia e ecofeminismo do ponto de vista de uma mulher transexual. ahaza!

o segundo, taquifemia, é parte de um projeto muito lindo meu e do hilan. fomos convidadxs por uma editora feminista chamada onira que está para nascer para organizar um livro sobre feminismos e filosofia no brasil e o blog é parte do projeto. tá engatinhando mas já tá online.

as imagens que ilustram o post são um dos meus joguinhos favoritos de todos os tempos, o earthbound para nintendo. em cima está o clumsy robot e ao lado a tessie, monstrinha do lago tess levando o macaco bubbles e um dos personagens principais de um lado a outro do lago. achou nada a ver? eu achei super na proposta. beijos.

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