Arquivo | Novembro, 2010

sectarismo?

18 Nov

tem uma questão que parece que sempre volta. e ela tem a ver com os usos das diferenças. alguém que me conhecesse poderia dizer: ‘ah, alice, só porque tua mono foi sobre luce irigaray e a questão da diferença sexual que você vê isso em todo lugar’,  pode ser, mas na verdade a pegada é um pouco outra. vou contar dois ‘causos’ recentes para ilustrar:

1- no fazendo gênero desse ano fui falar sobre filosofia e sci-fi feminista. minha vontade era reler joanna russ, octavia butler e ursula le guin a partir do mundo novo das queer ecologies que me apresentou sandra michelli: queria não apenas pensar se a natureza construída por elas era uma natureza queer (mí argumenta que falta à esse arcabouço teórico das queer ecologies uma atenção maior à transexualidade – queer é uma palavra muito ampla, né?) mas também qual a imagem de transexualidade que aparece nesses textos (se é que aparece). tudo isso porque estava completamente contaminada da crítica que ida hammer fez aos ecofeminismos… e porque me parecia bem óbvio que o texto da joana russ, tendo uma pegada ecofeminista mais explícita e tendo uma pegada separatista lesbiana SUPER explícita poderia conter traços da tal transfobia identificada por ida hammer… poisbem. fui lá pra floripa falar nessa mesa cheia de professoras e alunas da literatura, eu era a alien na sala. comecei falando dos romances e da conexão que queria fazer com esse arcabouço teórico das queer ecologies. depois introduzi a distinção trans e cis para falar sobre o livro da le guin (a mão esquerda da escuridão). a fala foi animada e senti que capturei a atenção da sala. quando terminei uma das professoras presentes me perguntou porque insistir nesse dualismo trans/cis.

2- num debate recente num xou aqui do df falava-se de mobilidade urbana. o cara que dava a palestra argumentou que vivemos a cidade de maneiras diferentes, que o acesso de um cara negro à cidade é diferente do de um cara branco – em certos lugares ele é temido, em certos lugares isso o torna um alvo (da polícia por exemplo- tudo isso condicionado pelo racismo). que o acesso de um pedestre é diferente do acesso de um cara no seu carro. que o acesso de uma garota a cidade pode ser muito restrito (em termos de horários, de locais, de companhias, blá). ai uma menina que não era do df pediu a palavra e disse que ela percebia que aqui em brasília nós erámos muito sectaristas, que dividíamos tudo: homem/mulher, branco/preto, etc. e que essas diferenças só estavam em nossas cabeças. que nós todos somos, de fato, seres humanos.

o que respondi para uma e depois tentei responder a outra (e que vou continuar respondendo toda vez que encontrar esse tipo de fala na minha frente) é que existem diferenças no mundo. e mesmo que você creia que elas sejam construídas socialmente elas existem (a partir do momento que foram construídas) e não vão deixar de existir porque você quis assim (construtivismo não é igual a voluntarismo). vivemos numa organização social em que há assimetria de poder entre homens e mulheres desde o macro até o micropolítico – essa assimetria produz (e é produzida por?) diferenças.

assim também, vivemos numa organização social que a transexualidade é vista como desvio e a cissexualidade como a norma. um passo importante para chacoalhar a norma é NOMEAR. porque o de praxe, o normal, o pressuposto não precisa de nome. nome a gente dá pro desvio. se queremos desafiar a noção de que a transexualidade ou transgeneridade seja desvio é importante falarmos de cis, mostrarmos que se identificar com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer é apenas uma possibilidade de identificação dentre as possíveis (ou seja: pessoas cis também tem uma identidade de gênero). é um passo para minar o privilégio cis  - o privilégio de passar como normal.

sobre sermos todOs seres humanos falo outro dia…

biopolítica strikes back

11 Nov

juventude do meu brasil-sil-sil,

tô chocada com essa notícia abaixo. trata-se de um apanhado dos projetos de lei que estão tramitando nes

se exato momento para retroceder ainda mais no processo de descriminalização do aborto. aliás, são projetos para intensificar o controle sobre os corpos das mulheres, limitando os direitos sexuais das mulheres.

fiquei tão choks que resolvi postar aqui… então vamos lá. post pilantra só com links:

A tal “notícia” que não é tão notícia assim- Carta às(aos) deputadas(os) da comissão de seguridade social e família assinada por entidades feministas  - Cadastro obrigatorio de gravidez em pauta no Congresso Nacional.

- aproveito para divulgar dois textos da tatiana santos amiga e escola de feminismo para mim. eles são de 2009 e fazem parte da coluna que ela mantém no site da parada lésbica. os dois são sobre aborto e a clandestinidade e o risco de vida a que a criminalização dessa prática expõe a todas nós, vulnerabilizando de maneira mais contundente mulheres negras e pobres:  até quando calndestinas? e somos todas clandestinas

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